- 8 Feb 2010 - 10:43 - 26 Apr 2010 - 10:43
- 26 May 2010 - 09:00 - 28 May 2010 - 09:00
- 7 Jun 2010 (All day) - 9 Jun 2010 (All day)

O meu grande sonho é estudar, ter emprego e poder dar aos meus filhos uma vida melhor. Decidí voltar à escola porque vejo que para se acabar com a pobreza absoluta é preciso estudar. A enxada de agora é uma caneta, ou seja, saber falar e escrever”
Cubo é uma das comunidades do distrito de Massingir,provincial de Gaza, no sul de Moçambique. É região com potencialidades em recursos florestais e faunísticos, onde ocorrem algumas espécies, como o elefante e o rinoceronte.
Com o fim da guerra em 1992, que assolou o país durante 16 anos, a procura de terras naquele distrito, principalmente para o eco-turismo, por investidores privados, aumentou consideravelmente e com ela os conflitos que opõem as populações locais e alguns agentes económicos.
Em face da crescente usurpação de terras naquela zona, três comunidades, nomeadamente Cubo, Chivovo e Mbhindzo, criaram uma associação denominada “Tlharihane va ka Cubo”, o que significa “despertai população de Cubo”, associação legalizada em 2006.
Uma das pessoas escolhidas para dirigir esta associação é Cecília Cubai. Com 40 anos de idade, deficiente físico e mãe de três filhos, depois de muitas vicissitudes que a impediram de estudar, entre a quais a sua deficiência e a guerra, decidiu voltar à escola, ultrapassando todas as barreiras de uma mulher inserida numa sociedade em que o papel da mulher limita-se exclusivamente em cuidar do lar. Cecília Cubai frequenta actualmente a sétima classe com um grupo de meninos. A razão do regresso à escola é simples!” A arma para o combate à pobreza absoluta são os livros”
Meu nome é Cecília Cubai. Nasci aquí em Cubo, em 1968. A minha infância não foi feliz devido à estigmatização resultante da deficiência que adquirí aos sete anos, em 1975, por motivo de doença, cujo nome desconheço em Português. Muitas pessoas, sobretudo crianças, faziam caretas da minha situação, isolando-me. Comecei a estudar em 1978, com sucesso, tendo em 1981 passado para quarta classe. Na altura não havia quarta classe aqui na aldeia e era obrigatório deslocar-se à vila, que dista aproximadamente 17 quilómetros, distância que devia percorrer a pé, ida e volta, dado que não havia transporte.
Na condição de deficiente, e porque naquele ano (1981) a região foi assolada por uma grande seca, como não comiamos quase nada, reprovei na quarta classe e deixei de estudar. Em 1984, fui convidada para ser monitora de educação e dei aulas até 1986. Nesse ano, a guerra de desestabilização começou a afectar a nossa região o que obrigou a nossa comunidade a se refugiar no mato. Como eu não aguentasse correr, o meu pai levou-me para a vila onde permanecí durante o conflito, tendo regressado à Cubo, em 1993, depois do fim da guerra.
Já na minha aldeia, passei a trabalhar como vendendora numa pequena loja que mais tarde abandonei por desentendimentos com o proprietário. Em 2004, fui convidada para trabalhar como servente na Escola Primária de Cubo, onde comecei de novo a estudar. Frequentei a quinta classe como assistente e passei de classe sem ter ido ao exame. Como em 2005 e 2006 não havia sexta classe, só viria a continuar a estudar em 2007. Frequentei a sexta-classe, passei e agora estou na sétima classe.
Meu marido abandonou me e neste momento estou desempregada. O meu contrato como servente da escola terminou naquele mesmo ano, 2006.
Quem me ajuda a sustentar os meus filhos são os meus irmãos. Eles são camponeses mas tentam vender milho ou gado ajudando me a custear os estudos dos meus filhos.
O meu grande sonho é estudar, ter emprego e poder dar aos meus filhos uma vida melhor. Decidí voltar à escola porque vejo que para se acabar com a pobreza absoluta é preciso estudar. A enxada de agora é uma caneta, ou seja, saber falar e escrever. As outras mulheres, aqui de Cubo, olham com desdém a minha iniciativa de voltar à escola. Elas se riem de mim, principalmente porque aquí, as obrigações da mulher após o casamento são cuidar da casa, ir a machamba, cozinhar, etc.
As principais dificuldades das mulheres de Cubo são as obrigacões do lar. As mulheres ocupam-se muito dos trabalhos caseiros não lhes resta tempo para mais nada: acordam de madrugada vão à machamba, voltam e entram no mato à procura da lenha, depois da lenha vão a busca da água, lavam a roupa e depois maticam as casas...não têm tempo! Isto impede-as de progredirem e principalmente as raparigas que, ou não vão à escola ou se vão, têm mau aproveitamento. Ainda no concernente à rapariga, está o fenómeno lobolo (casamento tradicional); muitas raparigas são tiradas cedo da escola para se casarem. Ainda este ano, há muitas meninas que vão deixar de estudar na nossa escola porque vão ao lar.
Uma outra preocupação é o HIV-SIDA! Há muitos casos de HIV-SIDA aqui na zona. Por essa razão, a UDEBA(Unidade de Educaçao Básica) construiu uma padaria aquí, onde sempre há palestras sobre a prevenção do HIV-SIDA.
Como membro da associacão de Cubo, fui escolhida pela comunidade; o nosso objectivo com a associação é a criação de uma reserva de fauna bravia. Para o efeito, solicitamos ao Governo 10 mil hectares,(esta é a área que restou, depois que o governo dividiu a terra das comunidades pelos investidores). Na pequena parcela que nos foi concedida ainda não iniciamos com a criação da reserva porque não temos dinheiro, esperando por um investidor que prometeu apoiar-nos.
Em termos de profissão, nao podendo ser professor por não me aguentar por muito tempo de pé, gostaria de estudar e trabalhar com computadores (informática).