- 28 Jul 2010 - 15:14 - 15 Oct 2010 - 15:14
- 22 Nov 2010 - 14:54 - 26 Nov 2010 - 14:54
“Sou camponesa, semeio milho, amendoim, feijao e outras culturas. Sao culturas que nem chegam a reproduzir porque sao dizimadas pelos animais bravios. Agora que sao quase 18 horas, devo sair para machamba espantar hipopotamos . Todos os dias durmo na machamba.
Semear culturas e nao proege-las é o mesmo que nada”.
Nao sabe dizer quantos anos tem; sabe apenas dizer que nasceu em 1941. Vive na comunidade de Macavene, interior do Parque Nacional do Limpopo, na provincia de Gaza, sul de Moçambique. O Parque Nacional do Limpopo foi proclamado em 2002 e no mesmo ano passou a integrar o chamado Parque Transfronteirico do Grande Limpopo que engloba os parques nacionais de Kruger na África do Sul e Gonarezhou,no Zimbabwe.
Aissa vive no povoado de Macavene, uma das três comunidades afixadas no interior do Parque Nacional do Limpopo que com a proclamacao do parque deverao ser retiradas para o exterior deste.
A transferência daquelas comunidades vem sendo discutida há sensivelmente cinco anos, não tendo se efectivado ainda, devido à falta de entendimento entre as autoridades do parque e as famílias afectadas. A discordia relaciona-se com as compensações, principalmente o modelo e o tamanho das casas, na zona do reassentamento. Outra razao tem a ver com o facto da terra que havia sido reservada para a pastagem do gado da comunidade apos o reassentamento, ter sido atribuida à PROCANA, uma empresa que pretende cultivar cana sacarina para a producao de bio-combustível.
Deste modo as comunidades continuam confinadas no interior do parque, sujeitas às investidas dos animais bravios cujos efectivos vao crescendo de ano para ano. Para além dos animais bravios atacarem animais domesticos como gado bovino e caprino, arrasam machanbas resultando em constante insegurança alimentar.
Para fazer face a situacao, os adultos sao obrigados a pernoitarem nas machambas para espantarem os elefantes e hipopótamos. É uma batalha incessante e perigosa. É que nem sempre os animais se espantam com o barulho dos batuques e gritos dos Homens. E quando isso acontece, quem foge é o próprio Homem. O perigo acentua-se ainda mais para as maes que levam bebés; para além destes estarem expostos aos perigos dos paquidermes, estao em constante exposicao ao mosquito, vector da malária.
Aissa Matavel é uma das mulheres que nao conhece descanso e nem sabe que na vida ha momentos de lazer. De dia divide os seus afazeres entre o trabalho da machamba, colecta de lenha, busca de agua, confeccao de alimentos entre outras actividades geralmente atribuidas à mulher. A noite fica na machamba com a fogueira acesa e tocando batuque para afugentar os animais bravios. As crianças ficam em casa e entregues à sua sorte, mesmo em caso de doença.” Nao podemos ir com as crianças ao mato, a menos que esteja a amamentar, porque mesmo nós precisamos de correr quando os animais aparecem. É que mesmo com batuque e fogo os animais as vezes nao fogem. ”Esta é uma Guerra. Perdemos a última campanha porque os animais arrasaram tudo”. diz.
O seu dia a dia resume-se em levantar-se à madrugada, da machamba onde dorme, depois de uma jornada para espantar os bichos. Inicia com com a lavra para depois colher ervas que servirao de caril do almoco e jantar. Regressa à casa, careta àgua e prepara o almoco. Depois do almoço, prepara o jantar que leva no final do dia para a machamba, para o jantar enquanto vigia os animais.
Aissa tal como outras mulheres, tem sonhos. A diferença é que enquanto outras mulheres sonham com mais conhecimentos, com casa de praia, carro de luxo, boas finanças, férias memoráveis, etc . Aissa sonha com um helicóptero.
Um helicóptero para espantar os bichos que dizimam suas culturas!